
Às margens do Rio Acre, uma enorme gameleira (árvore de grande porte da família das Moráceas) marca o lugar onde começou uma história difícil de imaginar quando se olha para o mapa do Brasil. Foi naquele ponto, no fim do século 19, que surgiu o núcleo que daria origem a Rio Branco, hoje capital do Acre.
Tudo começou em 28 de dezembro de 1882, quando o cearense Neutel Maia fundou o Seringal Volta da Empreza. A exploração da borracha e a movimentação de embarcações fizeram a área crescer e, aos poucos, transformar-se em um povoado.
Mais de 140 anos depois, o seringal desapareceu e deu lugar a uma capital. A Gameleira, porém, permanece como um dos principais símbolos desse começo.
A origem de Rio Branco guarda ainda uma particularidade capaz de tornar essa história ainda mais surpreendente: quando o povoado começou a se desenvolver, aquela parte da Amazônia não pertencia oficialmente ao Brasil.
Para que o Acre aparecesse definitivamente no mapa brasileiro, foram necessários conflitos armados, uma revolução, negociações diplomáticas e um tratado internacional que envolveu até o pagamento de milhões de libras esterlinas.
Antes de ser brasileira, região pertencia à Bolívia
No final do século 19, o território que atualmente forma o Acre estava sob soberania da Bolívia.
Na prática, entretanto, milhares de brasileiros já ocupavam diferentes pontos da região. Muitos eram nordestinos atraídos pela exploração da borracha, produto que havia se transformado em uma das grandes riquezas da Amazônia.
O avanço dessa ocupação ajudou a aumentar as tensões pelo controle do território.
Entre 1899 e 1903, uma série de conflitos marcou a chamada Revolução Acreana. O desfecho militar abriu caminho para uma solução diplomática.
Em 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram o Tratado de Petrópolis, acordo que incorporou o território acreano ao Brasil.
Em contrapartida, o governo brasileiro concordou, entre outras obrigações, em pagar 2 milhões de libras esterlinas à Bolívia e construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, facilitando o acesso boliviano às rotas fluviais brasileiras.
O diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, teve papel central nas negociações. Anos depois, seu nome ficaria eternamente ligado à principal cidade daquele território.
De seringal a capital do Acre
O povoado formado ao redor do Seringal Volta da Empreza ganhou importância rapidamente.
A localização às margens do Rio Acre facilitava a chegada de vapores durante os períodos de cheia. Em 1884, Neutel Maia abriu uma casa comercial para atender embarcações, pequenos seringais e o comércio de gado boliviano.
Pouco a pouco, aquele pedaço de terra deixou de funcionar apenas como uma propriedade dedicada à exploração da borracha. Comerciantes, trabalhadores e moradores começaram a se estabelecer no entorno, dando características urbanas ao antigo seringal.
Depois da incorporação do Acre ao Brasil, o povoado se tornou sede do Departamento do Alto Acre.
Gameleira marca o berço de Rio Branco
Localizado às margens do Rio Acre, o espaço preserva a ligação entre a cidade atual e o antigo seringal que deu origem ao povoamento.
A Gameleira se transformou em um dos maiores símbolos históricos da capital, visto que o local foi cenário da formação das primeiras ruas, casas comerciais e residências daquele núcleo urbano.
O rio também fazia parte dessa dinâmica, visto que, antes da expansão das estradas, as embarcações tinham papel fundamental no deslocamento de pessoas, mercadorias e produtos da borracha pela Amazônia.
Palácio conta como Acre se transformou
Outro endereço importante para entender essa trajetória é o Palácio Rio Branco.
Inaugurado em 1930, o prédio de inspiração neoclássica se tornou um dos principais símbolos arquitetônicos da cidade.
O espaço reúne elementos ligados à formação histórica e política do Acre e ajuda o visitante a compreender acontecimentos que marcaram a transformação da região.
A própria arquitetura chama atenção em uma capital cuja origem está ligada à floresta, aos rios e aos seringais.
Na época de sua construção, o palácio fazia parte de um processo de modernização da cidade e de consolidação das instituições públicas em uma região que poucas décadas antes havia sido palco de uma disputa internacional.
Mercado de 1929 guarda sabores da Amazônia
A história de Rio Branco também pode ser descoberta entre bancas, restaurantes e pequenos comércios.
Construído em 1929, o Mercado Velho se tornou um dos endereços tradicionais da capital acreana. O espaço reúne artesanato, ervas medicinais, produtos regionais e comidas que ajudam a contar a formação cultural da cidade.
Preparações com macaxeira, tapioca, peixes amazônicos e outros ingredientes encontrados na região dividem espaço com receitas que chegaram ao Acre pelas mãos de diferentes grupos de migrantes.
Quibe ganhou versões que só poderiam nascer no Acre
Quem chega a Rio Branco pode se surpreender com a importância do quibe na culinária local.
A presença do prato está ligada às famílias sírio-libanesas que chegaram ao Acre durante o ciclo da borracha. Na Amazônia, receitas de origem árabe começaram a ser adaptadas aos ingredientes disponíveis.
Uma das criações mais características dessa mistura é o quibe de macaxeira.
No lugar de simplesmente reproduzir a preparação tradicional com trigo, a receita acreana incorporou a macaxeira, raiz utilizada há séculos pelos povos originários da Amazônia.
A massa preparada com a raiz cozida e amassada recebe recheio de carne e depois é frita.
O resultado é uma comida que reúne em uma única receita influências árabes, indígenas e nordestinas e que se transformou em parte da identidade gastronômica acreana.
Rabada encontra tucupi e jambu
Outro prato que chama atenção é a rabada no tucupi, combinação entre carne bovina cozida lentamente e um dos ingredientes mais característicos da cozinha amazônica.
O tucupi é um caldo amarelo extraído da mandioca e utilizado em diferentes preparações do Norte do país.
Na rabada, ele pode aparecer acompanhado pelo jambu, folha conhecida pela sensação de dormência que provoca na boca.
Quem procura sabores amazônicos mais tradicionais também encontra o tacacá, servido em cuia e preparado com ingredientes como tucupi, goma de tapioca, camarão seco e jambu.
Geoglifos revelam história muito anterior aos seringais
A história da região, entretanto, não começou com Neutel Maia nem com a exploração da borracha. Muito antes da chegada dos seringueiros, diferentes povos indígenas já ocupavam o território.
Uma das evidências mais impressionantes dessa presença são os geoglifos encontrados no Acre.
Vistas principalmente do alto, essas estruturas formam enormes desenhos geométricos no solo, incluindo círculos, quadrados e linhas.
As descobertas arqueológicas ajudaram a ampliar a compreensão sobre a ocupação humana da Amazônia antes da chegada dos europeus.
Capital fica próxima de duas fronteiras internacionais
A localização de Rio Branco é outra característica que diferencia a cidade.
No extremo oeste brasileiro, a capital funciona como ponto estratégico para deslocamentos em direção ao Peru e à Bolívia.
A ligação rodoviária pela chamada Estrada do Pacífico permite atravessar a fronteira e seguir pela Cordilheira dos Andes em direção ao território peruano.
A proximidade ajuda a explicar por que influências dos países vizinhos também aparecem na cultura acreana.
Quando visitar Rio Branco
Rio Branco possui clima quente e úmido durante grande parte do ano, com períodos mais chuvosos e outros de menor precipitação.
Para quem pretende aproveitar principalmente parques, espaços históricos e outros passeios ao ar livre, os meses menos chuvosos tendem a facilitar a programação.
Há ainda uma particularidade que pode pegar turistas desavisados logo na chegada, visto que o Acre está duas horas atrás do horário de Brasília.
Isso significa que, quando os relógios marcam meio-dia em Brasília ou São Paulo, ainda são 10h em Rio Branco.