
Imagine conseguir uma aula de inglês, uma sessão de pilates ou uma consultoria financeira, mas sem precisar pagar pelo serviço. Pelo menos, não com dinheiro.
Em uma startup criada em Praia Grande, no litoral de São Paulo, a solução funciona de outra maneira. Em vez de reais, os usuários utilizam o próprio tempo como moeda de troca.
Essa é a proposta da Tami, plataforma que criou uma economia compartilhada baseada em horas. Na prática, cada hora que uma pessoa dedica para oferecer um serviço gera 1 TamiCoin, crédito que pode ser utilizado posteriormente para acessar qualquer outra atividade disponível na rede.
A ideia, portanto, é simples. Uma pessoa oferece aquilo que sabe fazer, acumula horas e, depois, utiliza esses créditos para aprender ou receber algo de outro participante. Assim, uma aula de idiomas pode se transformar em uma sessão de terapia, uma consultoria financeira pode render uma aula de Boi Bumbá e uma habilidade culinária pode ser trocada por uma atividade física.
O modelo, porém, vai além da tradicional permuta. Isso porque a troca não precisa acontecer diretamente entre duas pessoas. Quem oferece um serviço para alguém acumula créditos que podem ser usados com qualquer outro participante. Dessa forma, o tempo circula pela rede sem que o dinheiro precise passar de uma mão para outra.
Em apenas três meses de funcionamento, a Tami já ultrapassou 700 membros espalhados pelo Brasil. A maior concentração está em São Paulo, mas a plataforma também já reúne usuários de diferentes estados.
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Uma ideia que nasceu no litoral de São Paulo
Por trás da iniciativa está Yasmin Ferreira, publicitária natural de Praia Grande. A ideia de criar uma nova forma de acesso a serviços surgiu a partir do interesse da empreendedora por economia compartilhada e pelo impacto que modelos alternativos podem provocar na vida das pessoas.
Durante a graduação em Publicidade pela Universidade de São Paulo (USP), Yasmin passou a estudar a relação entre economia, meio ambiente e sociedade. O tema, posteriormente, também apareceu em seu trabalho de conclusão de curso.
“Eu sempre me encantei muito por três áreas: artes, economia e meio ambiente. Meu TCC foi focado em economia e meio ambiente, e foi aí que me encontrei com um livro que se chama ‘Resgatar a função social da economia’, que fala sobre a questão da dignidade humana”, conta.
Segundo ela, uma das ideias apresentadas na obra acabou mudando sua maneira de enxergar o funcionamento da economia.
“Uma frase me marcou: a gente não precisa economizar mais, mas repensar a economia, criar uma nova economia porque a atual não está funcionando”, relembra.
A partir daí, Yasmin começou a pesquisar alternativas ao modelo tradicional de consumo. Foi nesse processo que encontrou os chamados bancos de tempo, sistemas nos quais as pessoas utilizam horas de trabalho e conhecimento como unidade de troca.
O conceito já existe em diferentes países, principalmente na Europa. No Brasil, entretanto, essas iniciativas ainda costumam funcionar de maneira mais informal, muitas vezes com planilhas ou grupos de mensagens.
Foi justamente aí que Yasmin enxergou uma oportunidade.
“Imagina um monte de gente trocando hora, se falando para conseguir acessar bem-estar. É uma bagunça”, brinca. “Então pensei que poderia existir uma plataforma para organizar isso.”
Como funciona a Tami
Para participar, o usuário precisa criar uma conta e cadastrar pelo menos uma habilidade ou serviço que esteja disposto a oferecer. Pode ser praticamente qualquer atividade, desde que faça sentido para a comunidade.
Uma pessoa pode, por exemplo, oferecer uma hora de conversação em inglês. Ao realizar o serviço, recebe 1 TamiCoin. Depois, pode utilizar esse crédito para contratar outro participante, mesmo que a pessoa ofereça uma atividade completamente diferente.
A startup também criou um mecanismo para estimular os novos usuários a movimentarem a plataforma.
“A gente tem uma estratégia que funciona assim: quando você faz login no aplicativo, se criar sua primeira oferta, ganha duas horas. Isso incentiva as pessoas a criarem ofertas porque elas querem consumir. Alguém vai requerer, e a roda começa a girar”, explica Yasmin.
Com isso, a plataforma tenta evitar um dos principais problemas de redes de troca: a dificuldade de encontrar alguém interessado exatamente naquilo que você oferece e, ao mesmo tempo, capaz de entregar o serviço que você procura.
Na Tami, essa relação deixa de ser direta. O crédito funciona como uma espécie de ponte entre os participantes.
De francês a Boi Bumbá
A diversidade de serviços oferecidos acabou se tornando uma das características mais curiosas da plataforma. Conforme os usuários começaram a cadastrar suas habilidades, surgiram atividades que Yasmin sequer imaginava encontrar na rede.
“A gente tem desde gente ensinando francês, pilates, terapia, até aula de Boi Bumbá e arquitetura”, conta.
Segundo a fundadora, a plataforma também incentiva os participantes a não subestimarem aquilo que sabem fazer.
“Um menino me disse que não sabia o que colocar, e eu falei: você gosta de produzir música? Coloca lá. Ele colocou e já teve trocas”, lembra.
Para Yasmin, esse processo ajuda a mostrar que conhecimento não está restrito a profissões tradicionais.
“Imagina que legal: você pode aprender crochê, fazer pilates, ter uma consultoria financeira, tudo sem dinheiro. É uma economia em rede”, afirma.
Uma alternativa em tempos de aperto financeiro
A proposta da startup também surge em um momento em que uma parcela significativa da população brasileira enfrenta dificuldades financeiras. Com o orçamento comprometido, serviços considerados importantes para o bem-estar ou para o desenvolvimento profissional acabam ficando fora do alcance de muitas pessoas.
É justamente nesse espaço que a Tami pretende atuar. A plataforma não elimina a necessidade de dinheiro para todas as situações, mas cria uma alternativa para determinados serviços.
“A economia compartilhada já mudou a forma como a gente se locomove, viaja e consome. A Tami está mudando algo mais fundamental: a ideia de que você precisa de dinheiro para acessar todos os serviços das pessoas ao seu redor. O tempo pode ajudar a construir uma vida melhor”, afirma Yasmin.
Além disso, o modelo permite que pessoas com diferentes níveis de renda participem da mesma rede. O valor de uma hora é o mesmo independentemente do serviço oferecido.
Assim, uma hora de consultoria profissional tem o mesmo valor, dentro da plataforma, que uma hora dedicada a ensinar uma habilidade artesanal ou musical.
Mais do que uma moeda, uma rede de pessoas
Apesar do crescimento inicial, Yasmin reconhece que criar uma economia baseada em tempo exige mais do que desenvolver uma plataforma. É necessário fazer com que as pessoas participem, ofereçam serviços e, principalmente, confiem umas nas outras.
Por isso, a startup trabalha para ampliar a quantidade e a diversidade de ofertas disponíveis. Quanto maior a rede, segundo a empreendedora, mais possibilidades de troca surgem.
Para ela, a plataforma pode ajudar pessoas a acessarem conhecimentos, experiências e serviços que talvez não conseguissem pagar no modelo convencional.
“Eu acho que a gente precisa de alguma coisa para ajudar o mundo a melhorar. A situação no Brasil está complicada para todas as classes. É natural pensar em projetos para tentar resolver esse problema”, afirma.
Yasmin também destaca que o retorno esperado não se limita ao crescimento financeiro da startup.
“O que me motiva é ver as pessoas se animando e engajando com a ideia. Saber que está ajudando, que não é algo que vai voltar só financeiramente, mas que é uma troca real. Isso não tem preço”, diz.
A Tami ainda está no começo da trajetória, mas a proposta já encontrou centenas de pessoas dispostas a experimentar uma lógica diferente de consumo. Em vez de perguntar quanto custa determinado serviço, a plataforma propõe outra questão: quanto vale uma hora do seu tempo?
A resposta, nesse caso, pode estar em qualquer habilidade que alguém da rede esteja disposto a compartilhar.