Nem Suíça, nem Noruega: cidade do interior de SP conquista feito inédito e vira referência mundial em sustentabilidade

Nem Suíça, nem Noruega: cidade do interior de SP conquista feito inédito e vira referência mundial em sustentabilidade

Do interior de SP para o mundo, São José dos Campos fez história ao alcançar o nível platina em certificação inédita baseada em 133 indicadores ESG.

Quando o assunto é cidade inteligente, sustentabilidade e qualidade de vida, exemplos como Zurique, Oslo, Copenhague e Singapura costumam aparecer entre as principais referências internacionais. Mas um município do interior de São Paulo conseguiu colocar o Brasil no centro dessa discussão ao conquistar um reconhecimento até então inédito no planeta.

São José dos Campos se tornou, em novembro de 2025, a primeira cidade do mundo certificada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) conforme a norma internacional ISO 37125.

Voltada à avaliação de indicadores ambientais, sociais e de governança, conhecidos pela sigla ESG, a certificação concedeu ao município a classificação platina, o nível máximo do processo.

O feito colocou a cidade paulista em posição de destaque na discussão sobre políticas públicas sustentáveis e gestão baseada em dados. Ao todo, foram considerados 133 indicadores que ajudam a transformar aspectos do cotidiano urbano.

São José dos Campos se torna pioneira no mundo

O reconhecimento foi anunciado em 10 de novembro de 2025, durante evento no Paço Municipal. Uma semana depois, o certificado foi entregue durante a programação da COP30, realizada em Belém, no Pará.

O processo de certificação foi coordenado pelo Parque de Inovação Tecnológica (PIT), em parceria com a Prefeitura de São José dos Campos, e validado pela ABNT.

A ISO 37125 integra a família de normas internacionais voltadas ao desenvolvimento sustentável das cidades e reúne 133 indicadores relacionados aos princípios ESG.

No eixo ambiental, são considerados aspectos como emissões de gases de efeito estufa, arborização urbana, gestão de resíduos e preservação dos recursos naturais. No campo social, entram fatores como acesso à saúde, segurança, educação, inclusão e bem-estar da população.

A classificação depende do grau de aderência técnica aos requisitos. Além da platina, existem os níveis bronze, prata e ouro. São José dos Campos alcançou justamente o patamar mais elevado.

Cidade já colecionava certificações internacionais

A conquista não surgiu do zero. São José dos Campos já vinha construindo uma trajetória de certificações relacionadas ao desempenho urbano.

Em março de 2022, o município recebeu certificações baseadas nas normas ABNT NBR ISO 37120, ISO 37122 e ISO 37123, direcionadas, respectivamente, a serviços urbanos e qualidade de vida, cidades inteligentes e cidades resilientes.

Nos anos seguintes, a cidade passou por novas avaliações. Em 2023 e 2024, foi recertificada e, em 2025, manteve a classificação platina nas três normas após uma nova auditoria. A ISO 37125 acrescentou uma quarta frente a esse conjunto, desta vez concentrada na mensuração de indicadores ESG.

A própria ABNT lista atualmente São José dos Campos com classificação platina nas quatro normas.

Tecnologia começa a aparecer no cotidiano da população

Por trás dos certificados estão iniciativas que tentam levar o conceito de cidade inteligente para além de aplicativos, câmeras e sensores.

São José dos Campos investiu nos últimos anos em conectividade, digitalização dos serviços públicos e infraestrutura tecnológica. A estratégia também alcança áreas como mobilidade, educação, segurança, sustentabilidade e planejamento urbano.

Nesse modelo, dados deixam de servir apenas para produzir estatísticas e passam a orientar decisões da administração pública. A lógica é acompanhar indicadores ao longo do tempo para identificar problemas, avaliar resultados e direcionar investimentos.

Mobilidade sustentável ganha espaço

A cidade vem expandindo sua malha cicloviária e também implantou um sistema de bicicletas compartilhadas integrado à dinâmica do transporte urbano.

Ao mesmo tempo, São José dos Campos aposta na eletrificação do transporte coletivo como uma das principais estratégias para reduzir a emissão de poluentes.

Até julho de 2026, 32 ônibus elétricos já haviam sido incorporados à frota municipal. Entre agosto de 2022 e junho de 2026, esses veículos percorreram aproximadamente 3,53 milhões de quilômetros.

Ônibus elétricos já evitaram milhares de toneladas de CO₂

A mudança na frota também começou a produzir resultados ambientais mensuráveis.

Segundo estimativa divulgada pela prefeitura, a operação dos ônibus elétricos evitou o consumo de aproximadamente 1,96 milhão de litros de diesel no período.

Mesmo considerando as emissões indiretas associadas à geração da eletricidade consumida pelos veículos, a redução líquida calculada pelo município permanece superior a 4,75 mil toneladas de CO₂ equivalente.

A eletrificação ainda traz outro efeito importante. Durante a circulação, os ônibus elétricos não emitem diretamente poluentes como material particulado, óxidos de nitrogênio, monóxido de carbono e hidrocarbonetos, substâncias associadas à piora da qualidade do ar.

A prefeitura prevê ampliar significativamente a frota. A meta divulgada em julho de 2026 é chegar a uma operação totalmente eletrificada até 2027, com a incorporação de mais 380 veículos.

Gestão de resíduos também entra na conta

A sustentabilidade urbana, no entanto, não depende apenas da maneira como as pessoas se deslocam pela cidade.

A gestão dos resíduos é outra frente considerada dentro das políticas ambientais de São José dos Campos. A cidade mantém Pontos de Entrega Voluntária, os PEVs, destinados ao descarte adequado de diferentes materiais.

A lógica é reduzir o descarte irregular em ruas, terrenos e áreas verdes, além de facilitar a destinação ambientalmente adequada dos resíduos.

Biodiversidade também faz parte da estratégia

A ideia de sustentabilidade adotada pela cidade vai além da infraestrutura urbana e alcança a proteção do patrimônio natural.

São José dos Campos possui áreas de grande importância ambiental, principalmente no distrito de São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira. A região reúne fragmentos preservados de Mata Atlântica e abriga diferentes espécies da fauna brasileira.

A preservação de recursos naturais é justamente um dos componentes considerados entre os indicadores ambientais da ISO 37125, ao lado de temas como arborização, emissões e gestão de resíduos.

Certificação não significa que a cidade não tenha problemas

Apesar do peso do reconhecimento, receber a classificação platina não significa que São José dos Campos tenha solucionado todos os desafios urbanos.

A própria metodologia ajuda a colocar a conquista em perspectiva. A certificação deve ser entendida como uma avaliação baseada em indicadores, rastreabilidade e evidências técnicas, e não como um ranking absoluto que elege a “melhor cidade do mundo”.

Segundo a ABNT, o procedimento de auditoria busca assegurar a conformidade e a credibilidade das informações utilizadas pela administração pública. Dessa forma, os resultados podem ser acompanhados ao longo do tempo e servir de base para políticas públicas orientadas por evidências.

Certificação precisa ser mantida

Outro detalhe importante é que chegar ao nível platina não encerra o processo.

São José dos Campos já passou por sucessivas auditorias para manter as certificações anteriores. As normas conquistadas em 2022 foram avaliadas novamente em 2023, 2024 e 2025, demonstrando que o reconhecimento depende da continuidade do acompanhamento dos indicadores.

No caso da ISO 37125, a ABNT informa atualmente que o certificado 564.001/25 tem validade até 4 de novembro de 2026.

Referência para outros municípios

O pioneirismo transforma São José dos Campos em uma espécie de laboratório para municípios interessados em combinar tecnologia, sustentabilidade e gestão baseada em dados.

Mais do que instalar sensores ou digitalizar serviços, a experiência mostra uma definição mais ampla do que significa ser uma cidade inteligente. Saúde, educação, inclusão social, preservação ambiental, transparência, mobilidade, redução das emissões e capacidade de transformar informações em decisões públicas também fazem parte dessa equação.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/nem-suica-nem-noruega-cidade-do-interior-de-sp-conquista-feito-inedito-e-vira-referencia-mundial-em-sustentabilidade/

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