
Virginia Fonseca encerrou a parceria comercial com a plataforma de apostas Blaze em meio a uma disputa judicial que colocou a publicidade feita por influenciadores para casas de apostas no centro das atenções.
O rompimento foi anunciado nesta sexta-feira (21), pouco mais de um mês após o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) ajuizar uma ação civil pública contra a influenciadora e a empresa.
O processo questiona estratégias utilizadas para divulgar apostas nas redes sociais e aponta supostas práticas publicitárias abusivas e enganosas.
Inicialmente, o Ministério Público pediu R$ 120 milhões em indenização por danos morais coletivos. Posteriormente, após ter acesso ao balanço financeiro da plataforma, o órgão ampliou o pedido e passou a cobrar R$ 380 milhões.
Virginia anuncia fim da parceria com a Blaze
A confirmação do rompimento partiu da VF Digital, agência ligada à influenciadora. Em comunicado divulgado nesta sexta-feira, a empresa informou que a parceria comercial entre Virginia e a Blaze chegou ao fim.
O comunicado não detalhou os motivos que levaram ao encerramento nem relacionou expressamente a decisão ao processo movido pelo Ministério Público.
A rescisão ocorre, porém, em meio à repercussão da ação civil pública e cerca de um mês depois de a Justiça impor restrições às propagandas de apostas envolvendo a influenciadora e a plataforma.
Ação começou com pedido de R$ 120 milhões
A disputa judicial teve início em 8 de julho, quando o MPDFT ajuizou uma ação civil pública contra Virginia Fonseca e a Foggo Entertainment Ltda., operadora da Blaze.
Na ocasião, o órgão pediu a condenação solidária dos réus ao pagamento de R$ 120 milhões por danos morais coletivos, além da retirada de conteúdos considerados enganosos e da adoção de medidas para proteger os consumidores.
Segundo o Ministério Público, a publicidade utilizada para promover apostas teria potencial para alcançar consumidores considerados vulneráveis em grande escala, principalmente devido ao enorme alcance dos influenciadores contratados pela plataforma.
O MPDFT também questionou conteúdos que poderiam transmitir a ideia de ganhos fáceis ou garantidos, minimizar o risco de perdas financeiras ou apresentar as apostas como uma possibilidade de “renda extra”.
As acusações apresentadas pelo Ministério Público ainda são discutidas no processo e não representam uma condenação definitiva de Virginia ou da empresa.
Pedido de indenização subiu para R$ 380 milhões
O tamanho da disputa aumentou depois que o Ministério Público teve acesso a informações financeiras da plataforma.
Segundo o MPDFT, um balancete da Blaze revelou faturamento de aproximadamente R$ 1,9 bilhão em 2025. A partir desse valor, o órgão pediu que a indenização por danos morais coletivos fosse fixada em R$ 380 milhões.
O montante corresponde a 20% do faturamento informado e foi calculado pelo Ministério Público com base em critérios previstos na Lei de Defesa da Concorrência.
Isso significa que os R$ 380 milhões não correspondem a uma condenação já determinada pela Justiça, mas ao valor reivindicado pelo MPDFT no processo.
Mais de 42 mil reclamações colocaram Blaze no radar
Segundo o MPDFT, a 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor (Prodecon) instaurou um inquérito civil em 19 de junho após receber denúncias de consumidores e analisar mais de 42 mil reclamações registradas contra a plataforma.
Durante a investigação, servidores do Ministério Público chegaram a se cadastrar na Blaze para acompanhar as comunicações enviadas aos usuários.
Foram analisados e-mails promocionais que, na avaliação do órgão, utilizavam linguagem persuasiva, criavam senso artificial de urgência e destacavam possíveis vantagens enquanto informações consideradas essenciais apareciam com menor visibilidade.
A partir desse material, o Ministério Público passou a analisar não apenas a atuação da plataforma, mas também a maneira como seus serviços eram apresentados ao público por influenciadores digitais.
“Renda extra” virou alvo da Justiça
Um dos principais pontos da disputa envolve justamente a maneira como as apostas são apresentadas ao público.
Em julho, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) acolheu parcialmente um recurso apresentado pelo Ministério Público e impôs uma série de restrições à publicidade da Blaze e de Virginia.
A decisão proibiu conteúdos que prometam ou sugiram lucros fixos, certos ou garantidos. Também vetou propagandas que apresentem apostas como “renda extra”, fonte de renda, investimento, alternativa ao emprego, solução para dificuldades financeiras ou maneira de recuperar valores perdidos.
Também ficou proibida qualquer divulgação que sugira ausência de risco de perda.
No caso de Virginia, a Justiça determinou ainda que conteúdos publicitários sejam identificados de maneira clara nas redes sociais, inclusive quando estiverem misturados a publicações pessoais, stories, reels ou postagens sobre o cotidiano.
Conteúdos tiveram que ser retirados do ar
A decisão judicial também atingiu publicações que já estavam nas redes sociais.
Blaze e Virginia receberam prazo de 48 horas para retirar conteúdos que contrariassem as determinações impostas pela Justiça.
As regras também alcançaram ofertas envolvendo bônus, recompensas, rodadas gratuitas e vantagens semelhantes. Segundo a decisão, as condições dessas promoções precisam ser apresentadas de maneira clara e com destaque suficiente para que o consumidor compreenda a oferta.
Em caso de descumprimento, a multa pode variar de R$ 100 mil a R$ 2 milhões por infração.
MPDFT também quer ressarcimento de apostadores com ludopatia
A ação ganhou outro capítulo após o Ministério Público ampliar os pedidos apresentados à Justiça.
Além dos R$ 380 milhões por danos morais coletivos, o MPDFT passou a pedir que a Blaze devolva integralmente os valores perdidos por apostadores que apresentem laudo profissional comprovando diagnóstico de ludopatia, condição caracterizada pela compulsão por jogos e apostas.
Para o Ministério Público, a discussão ultrapassa a publicidade irregular e envolve também a saúde financeira e mental dos consumidores.
Contratos com influenciadores também entraram na investigação
A relação entre influenciadores e plataformas de apostas é outro ponto central da investigação.
O Ministério Público questionou possíveis modelos de remuneração vinculados ao comportamento dos usuários captados por meio da publicidade e pediu a suspensão de mecanismos contratuais que relacionassem pagamentos a influenciadores ao prejuízo de apostadores, ao volume de apostas ou ao desempenho econômico das operações.
Na ação inicial, o MPDFT chegou a afirmar que Virginia teria recebido 30% sobre as perdas dos apostadores captados. Trata-se de uma alegação apresentada pelo órgão no processo e ainda sujeita à análise judicial.
A Blaze, por sua vez, negou anteriormente que o contrato mantido com Virginia previsse remuneração baseada nas perdas dos usuários.
Fim da parceria não encerra disputa judicial
Com o anúncio da VF Digital, Virginia deixa de manter vínculo publicitário com a Blaze. O encerramento do contrato, porém, não altera automaticamente os fatos que já estão sendo discutidos na ação civil pública.
O processo continuará tramitando na Justiça, que deverá analisar as acusações apresentadas pelo Ministério Público, as manifestações das defesas e os pedidos de indenização.