
No auge da década de 1970, a produção criativa no Brasil exigia lidar diariamente com a vigilância da repressão militar e o peso constante da censura. Assim, os artistas precisavam encontrar frestas para levar mensagens de força e respiro ao público.
Foi nesse cenário que, em 1974, aos 35 anos, Jorge Ben Jor mergulhou em tratados de filosofia, ciência e alquimia. Ao mesclar esses conceitos, que fascinavam a contracultura da virada dos anos 1960 para os 1970, com temas já fundamentais de sua trajetória, como o orgulho negro e a celebração da alegria, nasceu a obra-prima A Tábua de Esmeralda.
Com um total de 12 faixas, Jorge Ben consegue transformar os textos filosóficos do teólogo italiano Tomás de Aquino, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, e principalmente o “manifesto alquimista” da figura mítica de Hermes Trismegisto em uma mistura de samba e MPB de forma impecável, considerado por muitos o melhor projeto de sua carreira.
A viagem à Europa e a desconfiança inicial da gravadora
Os anos 1960 e 1970 foram marcados por uma intensa busca global por espiritualidade e temas transcendentais. Sintonizado com esses assuntos, Jorge Ben já realizava pesquisas com profundidade, acumulando leituras sobre alquimia, teologia e ordens místicas.
Durante uma viagem à Europa ao lado de Gilberto Gil, o compositor visitou locais históricos ligados aos alquimistas medievais. Essa experiência consolidou de vez o norte conceitual do disco.
A proposta, no entanto, enfrentou forte resistência inicial nos bastidores. Ao apresentar o projeto à diretoria da Philips (que operava sob a razão social Phonogram no Brasil), os executivos demonstraram ceticismo. Duvidando do apelo comercial de canções inspiradas em tratados herméticos.
No fim, o prestígio acumulado por Jorge e a força incontestável de suas composições dobraram a gravadora, garantindo sinal verde para a gravação.
Da tábua hermética ao manifesto contra a opressão
A grande aposta do álbum ganha forma definitiva em “Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda”.
Longe de criar apenas uma alegoria vaga, Jorge Ben fez algo impensável para a música pop comercial: musicou trechos literais da tradução latina da famosa tábua hermética atribuída ao místico egípcio-grego.
Embalada por uma levada hipnótica de violão acústico e percussão sutil, trechos como “o que está embaixo é como o que está no alto” foram transformadas em um mantra acessível e cadenciado, subvertendo a rigidez dos tratados medievais sem desrespeitar sua solenidade filosófica.
Essa mesma atmosfera fantástica deságua na emblemática faixa de abertura, “Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas”.
Com arranjos de cordas construídos com maestria e um groove circular e envolvente, a canção retrata sábios dedicados à transmutação da matéria e à busca pelo elixir da longa vida.
Ao cantar sobre figuras pacíficas que “evitam qualquer relação com pessoas de temperamento violento”, Jorge Ben operava em dupla camada. Satisfazia seu genuíno fascínio pelas ordens esotéricas e, simultaneamente, desenhava uma antítese poética à brutalidade do regime militar que governava o país.
O misticismo, no entanto, nunca afastou o compositor do chão da história brasileira. Em “Zumbi”, o disco atinge seu ápice lírico e político ao homenagear o líder do Quilombo dos Palmares e denunciar os horrores da escravidão.
Contrapondo a violência do tráfico negreiro ao poder da fé nos orixás e à força dos guerreiros de Angola, a faixa é erguida sobre uma base pulsante de samba-soul. Consolidando-se como um dos manifestos anti racistas mais contundentes e atemporais já gravados na música popular brasileira.
A pedra filosofal de Jorge Ben e o legado histórico
Décadas após seu lançamento, A Tábua de Esmeralda permanece intocável na história da cultura brasileira, frequentemente considerado um dos melhores discos já produzidos no Brasil.
A desconfiança inicial da Phonogram se desfez diante de uma recepção que uniu o entusiasmo popular ao deslumbramento da crítica especializada. Fascinada pela capacidade de Jorge Ben de criar um diálogo improvável entre o hermetismo europeu e o balanço do morro carioca.
Mais do que um marco discográfico, o álbum provou que a verdadeira ousadia artística não precisava seguir cartilhas óbvias para resistir ao autoritarismo.
Ao transmutar erudição mística em samba popular e celebrar com orgulho inegociável às raízes africanas em pleno regime de exceção, Jorge Ben alcançou sua própria pedra filosofal. Transformou o contexto adverso de 1974 em ouro puro para a história da música universal.